Boletim eletrônico da Federação das Apaes do Estado de Minas Gerais
Nº 3 - OUTUBRO 2009
 
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Relato de Franciele Silva, aluna da Apae de Tupaciguara, no Conselho Regional Triângulo Mineiro I


Carolina Matos NogueiraO relato de Franciele ocorreu durante a XVI Olimpíada das Apaes de Minas Gerais, em julho de 2009, em Belo Horizonte, na presença de sua Professora Talita.

Franciele nasceu em Tupaciguara, no Triângulo Mineiro, em 1984. Tem 6 irmãos, sendo cada dois deles, filhos de pais diferentes. Lamenta muito não ter tido a oportunidade de conhecer seu pai. Por total impossibilidade de criar seu último filho, a mãe o doou ao médico que fez seu parto e nunca mais se teve notícia da criança. Franciele nunca o viu, mas gostaria muito de conhecê-lo.

Sua infância, embora tenha sido muito difícil por causa da imensa pobreza em que viveu, foi abençoada pela presença constante, amorosa e sustentadora de sua mãe. Salientamos que Franciele apresenta gagueira e naquela ocasião não conseguia se comunicar com as pessoas. Escondia das outras crianças por sempre fazerem brincadeiras desagradáveis sobre seu jeito de falar. Tinha 15 anos, quando foi detectado um tumor maligno na cabeça de sua mãe, que em dois meses faleceu. Foi então que sua vida se tornou realmente muito difícil. Franciele foi morar com uma de suas irmãs mais velhas, mas em pouco tempo a situação ficou tão insustentável, que ela, desesperada, começou a buscar sua liberdade.

Foi nessa época que Franciele começou a freqüentar a Apae de Tupaciguara. E lá, iniciou tratamentos de fonoaudiologia e psicologia, que mantém até hoje, resultando em melhora extraordinária. Ela conseguiu superar boa parte da gagueira e hoje consegue se comunicar com as pessoas e se sentir mais livre. Diz que esse problema ainda a incomoda muito, que as pessoas ainda riem quando ela conversa e que sempre se sente muito envergonhada. Mas, diante do excelente resultado do tratamento, que ainda continua recebendo, ela acredita que poderá melhorar ainda mais.

Na Apae, Franciele começou a frequentar aulas de ginástica rítmica e atletismo e a participar de olimpíadas e festivais, sempre vencendo as competições e trazendo muitas medalhas para casa. Ela disse que tem quase 40 medalhas e que, em uma competição nacional obteve classificação para competir internacionalmente. Poderia ter ido para a Bélgica ou para o Chile, mas essas viagens não aconteceram por falta de verba. Em um festival regional, realizado em Uberlândia, ganhou o primeiro lugar em dança contemporânea. Essas atividades a ajudaram muito na elevação da autoestima. Na Apae, Franciele conheceu a professora Agda e Maristela (a Conselheira Regional), pessoas que muito a ajudaram e a apoiaram no momento difícil do repentino falecimento de sua mãe. A professora Agda, quem Franciele considera sua segunda mãe, vendo a situação insuportável que ela vivia na casa da irmã, ofereceu-lhe um emprego e a incentivou prestar um concurso público municipal, ajudando-a nos estudos. Agda encontrou um pequeno quarto para Franciele alugar. Segundo seu depoimento, embora este tenha sido um momento de grande libertação, foi também um período doloroso: a estruturação de uma nova forma de viver. Mas para sua alegria, no concurso, ela conseguiu uma das três vagas reservadas a pessoas com deficiência e em seguida foi cedida à Apae. Na área de Serviços Gerais, ela cumpre uma carga horária de 44 horas semanais e é quem orienta os estagiários, alunos do Programa de Educação Profissional da Apae.

Quando perguntamos Franciele como ela se sente hoje, ela disse: “Hoje sou independente, tenho meu emprego, minha casa, pago minhas contas e sou muito feliz com o que tenho. Considero-me uma pessoa 98% feliz”. Pretende continuar participando das olimpíadas e festivais apaeanos até quando puder e conseguir porque isso lhe traz imensa alegria, sensação de acolhimento e oportunidades de socialização e de viagens. A ginástica rítmica com arco e fita, o atletismo e a dança grupal são atividades muito importantes em sua vida. Adora viajar e representar sua Apae em festivais e olimpíadas. E já pôde alugar uma casinha maior, onde se sente muito bem.

Franciele não tem contato com seus irmãos consanguíneos, mas considera os apaeanos a sua verdadeira família. Disse que sem a Apae, não seria ninguém, não teria conseguido nada do que conseguiu. Foi na Apae que ela realmente cresceu e foi onde aprendeu tudo que sabe. Ela tem um namorado e pretende se casar.

Depoimento da Conselheira Regional do Triângulo Mineiro I, Maristela Feldner, sobre Franciele

Franciele começou a frequentar a Apae de Tupaciguara em 1995 por apresentar dificuldade de fala (gagueira), o que resultava em grande impedimento nas suas relações e ela também apresentava dificuldade de aprendizagem; repetiu três vezes a 1ª série. Tinha 15 anos e ainda não sabia ler. A equipe da Apae se reuniu para fazer um diagnóstico minucioso e o resultado foi deficiência intelectual, com necessidade de apoio pedagógico, fonoaudiológico e psicológico.

Sendo uma criança desestimulada, iniciou atividades de terapia, fonoaudiologia e psicologia. Começou a frequentar a sala de aula da 1ª série. No ano seguinte, em 1996, Franciele foi inserida no ensino comum, depois de apresentar bom desenvolvimento pedagógico. Da Apae, continuou recebendo apoios pedagógico e terapêutico e foi incluída nas áreas esportiva e artística. As atividades oferecidas pela instituição tiveram o objetivo de elevar sua autoestima, autonomia e segurança.

Franciele conseguiu se manter na escola comum até a 4ª série do 1º grau, apesar da resistência da escola com relação às suas dificuldades; ela necessitava de adaptações pedagógicas específicas, interesse este que a escola não teve.

Nosso programa de Educação Profissional lhe deu a oportunidade de trabalhar na própria Apae com carteira assinada. As atividades de artes e esportes deram-lhe a chance de conviver com diversas pessoas, viajar e com isto, adquirir autoconfiança e novas experiências. Hoje, Franciele é uma funcionária concursada pela Prefeitura de Tupaciguara, em adjunção na Apae. Exerce suas funções com competência, ainda recebendo monitoramento e constante acompanhamento da instituição. Ela realmente conseguiu vencer as barreiras de uma pessoa com deficiência intelectual.

   
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Jornalista responsável: Ana Laura Machado Santos